Participação de mulheres na ciência brasileira cresce 29% em 20 anos, aponta relatório
A participação de mulheres na ciência brasileira, como autoras de publicações científicas, cresceu 29% em 20 anos. Os dados constam no relatório “Em direção à equidade de gênero na pesquisa no Brasil”, lançado pela Elsevier-Bori. Esse avanço também se reflete no ecossistema do Parque Tecnológico de Sorocaba (PTS), que abriga empresas, laboratórios e instituições acadêmicas com a atuação destacada de diversas pesquisadoras.
Segundo o relatório, em 2022, 49% da produção científica nacional contou com, pelo menos, uma autora, percentual maior em relação aos 38% registrados em 2002.
Ainda de acordo com o levantamento, o Brasil é o terceiro país do mundo com maior participação feminina na ciência, ficando atrás apenas da Argentina e de Portugal, ambos com índice de 52%.
Kessi Marie de Moura Crescencio, responsável técnica do Laboratório de Biomateriais e Nanotecnologia da Universidade de Sorocaba (LaBNUS), instalado no PTS, avalia que, embora a desigualdade de gênero ainda seja uma realidade, esse cenário vem mudando gradualmente, pois as cientistas têm ocupado cada vez mais espaço na área.
Pesquisadora há oito anos, ela se encantou pela profissão no Ensino Médio, a partir dos experimentos realizados por um professor de Química. Graduada em Engenharia Química, identificou durante a faculdade sua vocação para a pesquisa, o que a levou a seguir a trajetória acadêmica com o mestrado e o doutorado em Ciências Farmacêuticas. Sua linha de estudos envolve o uso de um polissacarídeo extraído de uma alga marinha verde, associado a nanopartículas lipídicas para o desenvolvimento de novos sistemas de liberação de fármacos usados no tratamento de doenças inflamatórias intestinais.
Segundo Kessi, a rotina em laboratório, cercada por tubos de ensaio, microscópios, centrífugas e outros equipamentos, aliada à riqueza dos resultados obtidos, é uma grande satisfação. “A minha parte favorita na ciência é realizar experimentos e analisar diferentes materiais com a utilização de diversos equipamentos. Por exemplo, é bem interessante utilizar uma alga marinha em uma aplicação totalmente inovadora ou, então, utilizar uma nanopartícula que pode servir para vários fins. Outro exemplo prático é a utilização das nanopartículas de prata nas máscaras faciais na época da Covid-19. Na agricultura, podemos utilizar formulações com nanopartículas no lugar dos agroquímicos habituais, com o intuito de diminuir o uso de agrotóxicos. Também é possível desenvolver formulações com óleos essenciais como agroquímicos ambientalmente amigáveis”, exemplifica.
Impactos globais
Andresa Paula da Silva, analista de pesquisa e desenvolvimento na B.Nano, empresa especializada em soluções baseadas em nanotecnologia para a agricultura, também atua há oito anos com pesquisas em nanotecnologia. O seu interesse surgiu na infância, influenciada por filmes e desenhos que retratavam cientistas como exploradores e descobridores de mistérios. Com o tempo, a curiosidade se transformou no desejo de entender diferentes processos e desenvolver soluções práticas para problemas da sociedade.
Para isso, ela graduou-se em Engenharia de Bioprocessos e Biotecnologia, concluiu o mestrado em Processos Tecnológicos e Ambientais e atualmente cursa o doutorado em Ciências dos Materiais.
Andresa destaca que a maior presença de mulheres neste campo amplia a representatividade, além de acelerar a inovação e torná-la mais inclusiva.
De acordo com ela, trabalhar com ciência é desafiador, principalmente devido à incompreensão, por parte da sociedade e do setor econômico, de sua importância estratégica. “Existe uma dificuldade em entender que o tempo da ‘descoberta’ nem sempre é imediato, mas que ela é o motor fundamental para a evolução social e p crescimento econômico a longo prazo”, afirma.
Apesar dos desafios, a possibilidade de gerar efeitos globais por meio das pesquisas é o que a motiva a continuar “buscando descobertas”. “É gratificante saber que o meu trabalho pode gerar um impacto positivo no mundo, seja por meio da cura de doenças ou de melhorias na produção de alimentos, entre diversas outras áreas.”
Mulheres são fundamentais
Com 20 anos de trabalho, Glaciele Roberta Amaro Cafisso, analista química de laboratório da Zhongshan Chemical, que produz defensivos agrícolas, adubos e fertilizantes, também observa a ascensão das mulheres na área. Ela fez o curso técnico em Química motivada por um primo e conta que, no início da carreira, havia poucas pesquisadoras nos laboratórios por onde passou. Mas, atualmente, percebe um número crescente de representantes femininas, inclusive em cargos de liderança.
Segundo Glaciele, a participação de mulheres na ciência é fundamental para o êxito do processo e do resultado das pesquisas. “Nosso pensamento é dinâmico, nós conseguimos pensar em dez coisas ao mesmo tempo, temos muitas ideias, e isso é importante. A forma como a mulher trata a pesquisa é minuciosa, detalhista”, aponta ela, atuante com análise de defensivos agrícolas.
Para o presidente do Parque Tecnológico de Sorocaba, Nelson Cancellara, celebrar o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência é reconhecer o papel essencial que as pesquisadoras exercem no avanço da ciência, da tecnologia e da inovação. “No PTS, a presença feminina é uma realidade cada vez mais forte em nossos laboratórios, empresas e instituições de pesquisa, contribuindo diretamente para a qualidade e o impacto dos projetos desenvolvidos em nosso ecossistema. A diversidade de olhares, experiências e trajetórias fortalece a pesquisa científica e a inovação.”
Prêmio Ester Sabino
Reconhecimento concedido a pesquisadoras, o Prêmio Ester Sabino 2026 está com inscrições abertas até o dia 17 de fevereiro de 2026. As interessadas devem se inscrever pelo formulário: https://abre.ai/premioestersabino2026. A iniciativa da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo (SCTI-SP) valoriza a atuação de mulheres cientistas com contribuições relevantes para o desenvolvimento científico e tecnológico estadual.
As candidatas devem ser indicadas por instituições científicas, tecnológicas e de inovação, como universidades, centros de pesquisa, laboratórios e ambientes de inovação.
O Parque Tecnológico de Sorocaba, inclusive, está realizando um trabalho para incentivar as cientistas de seu ecossistema a se inscreverem.
